Podemos retomar os primeiros indícios de transformação da sociedade europeia que influenciaram a Sociologia ainda no Renascimento. O Iluminismo também contribuiu para uma desestabilização social e uma completa mudança da configuração urbana e política que tornaram a sociedade europeia altamente complexa e carente de fontes de explicações teóricas rigorosas.
Já a consolidação da Sociologia enquanto ciência ocorreu com o trabalho desenvolvido pelo jurista e sociólogo francês Émile Durkheim, que formulou o primeiro método preciso e exclusivo para a nova ciência e a introduziu na universidade como disciplina autônoma.
Contexto histórico do surgimento da Sociologia
Entre os séculos XV e XIX, sucessivos acontecimentos alteraram significativamente a vida, a política e a economia europeias. Podemos pensar que a economia e a política feudal não precisavam de grandes explicações, pois havia uma lógica interna justificada pelo clero e uma organização social rural e simplista, baseada em estamentos (a nobreza, o clero, os servos e os camponeses).
A sociedade estamental apoiada pela Igreja Católica simplesmente impunha que cada um nascia predestinado a levar um tipo de vida e que isso era escolha de Deus sendo, quase sempre, vedada a alteração dessa ordem. Se um indivíduo era servo, ele deveria servir, porque Deus quis assim. Se ele era nobre, era uma recompensa divina, porque o seu espírito era mais nobre.
O século XIX encontra-se em meio a uma crise devido ao alto desenvolvimento promovido pela industrialização, o que refletiu na formação de uma complexa crise de valores e conflito de interesses. Podemos listar como fatores históricos que contribuíram para o surgimento da Sociologia os seguintes:
Renascentismo
Com o Renascimento, a burguesia passa a crescer e aquela concepção de sociedade estamental medieval passa a ser alterada, visto que os burgueses não eram nobres, mas tinham tanto ou mais dinheiro quanto os nobres. A reivindicação da classe burguesa por seus direitos políticos ocorreu gradativamente de acordo com o crescimento dessa classe.
Essas alterações na configuração social europeia causaram uma alteração tão grande na ordem política e social do continente que, em partes, contribuíram até para a Revolução Francesa e para os ideais de igualdade e liberdade propostos pelo Iluminismo.
Encontramos no Renascimento europeu um período de transição do Medievo para a Modernidade. A retomada de valores filosóficos, científicos e estéticos da cultura greco-romana mudaram a concepção de conhecimento do ser humano, permitindo uma nova visão que inauguraria a Modernidade.
Capitalismo mercantilista
O surgimento do capitalismo em sua primeira forma, o mercantilismo, desencadeou a expansão marítima e comercial europeia, fator que possibilitou o desenvolvimento financeiro de potências por meio do comércio e da exploração voraz das colônias situadas nas Américas e, mais tarde, na África e na Ásia. Isso fez com que, em um primeiro momento (século XVI), o europeu buscasse entender as diferentes culturas das colônias.
Em um segundo momento (século XIX), o europeu precisava justificar a exploração sanguinária dos países africanos e asiáticos. No século XVI, começou, de forma embrionária, o desenvolvimento de uma atitude de estudo das diferentes culturas. No século XIX, aquele estudo tornou-se uma área científica das Ciências Sociais, a Antropologia. Em seu começo, por volta dos anos de 1870, a Antropologia era extremamente elitista e etnocentrista, além disso criava teorias para justificar a exploração das novas colônias, apesar de já estar em curso, no mesmo período, o capitalismo industrial.
Iluminismo
Os ideais iluministas projetaram um novo cenário intelectual e político ideal, baseado na justificação jurídica e política dos poderes e na separação entre Estado e Igreja. A partir disso, as pessoas passaram a buscar, pouco a pouco, os seus direitos e a exigir do Estado a legalidade em suas ações.
Isso não só provocou a Revolução Francesa, como fez com que houvesse uma gradativa alteração na concepção de política, o que se expressou como fator marcante para o estabelecimento de uma ciência capaz de compreender essa nova forma de sociedade e de política, baseada na legalidade e nos direitos fundamentais.
A consolidação da burguesia enquanto classe dominante e a formação do capitalismo industrial firmaram-se com a mudança da economia, antes baseada na manufatura e agora baseada na produção industrial, que gerou a divisão acirrada de classes sociais. Isso ocasionou uma intensa explosão demográfica nos centros urbanos que se industrializaram, como Londres e Paris, pois as pessoas migraram do campo para as cidades em busca de melhores condições de vida.
A falta de emprego para todo mundo resultou em miséria, fome, aumento significativo da violência e alastramento de doenças. O caos desse novo cenário europeu era, para Auguste Comte, mais um atestado de que era necessária uma ciência capaz de estudar e reordenar a sociedade, a fim de colocar a humanidade novamente no rumo do progresso.
Como a Revolução Francesa contribuiu para o surgimento da Sociologia?
A Revolução Francesa marcou profundamente a história europeia e, como não poderia ser diferente, foi um fator decisivo para o surgimento da Sociologia. O objetivo final alcançado da Revolução Francesa era acabar com o Antigo Regime.
A lógica monárquica, herdeira do medievalismo, foi derrubada, e o pensamento republicano começou a nascer na Europa. Forma de políticas menos excludentes, laicas e baseadas no Estado de direitos começaram a florescer na França, o que alterou a configuração social do país. Apesar dos fatores positivos que tornaram a revolução necessária, a França viveu anos de instabilidade política por conta do caos deixado no cenário pós-revolucionário, pois a grande Revolução Francesa, de inspiração burguesa e iluminista, ocasionou uma ruptura política dentro da Europa.
Segundo Comte, a Revolução Francesa foi necessária para o desenvolvimento de um novo pensamento político, laico, republicano e juridicamente amparado, mas o caos deixado pela ruptura abrupta impediu o crescimento social francês, fator que precisava ser alterado no século XIX. Como solução, Comte apontou que a Sociologia devia entrar em cena para entender a nova sociedade e reorganizá-la.
Diante da insegurança, que segundo Comte, era um empecilho para o crescimento, para a evolução e para o progresso, o filósofo propôs a criação de uma ciência que, tal como as ciências naturais, observasse e formulasse, metodologicamente, a sociedade a fim de propor rumos para a retomada do progresso social, científico e moral. Diante disso, o filósofo formulou a sua Lei dos Três Estados e inaugurou o positivismo.
O surgimento da Sociologia como ciência
Comte deu o primeiro passo para a criação da Sociologia. Porém, Émile Durkheim formulou uma crítica ao pensamento comtiano que, na visão de Durkheim, era demasiado metafísico e não atingia, de fato, o estágio positivo capaz de criar uma ciência rigorosa para a sociedade, pois era baseado em abstrações.
Para Durkheim, uma ciência da sociedade deveria ter o seu próprio método de análise capaz de operar autonomamente, pois as leis das ciências naturais não seriam suficientes para compreender o todo complexo que eram as sociedades capitalistas industriais.
Durkheim formulou o método comparativo de análise social baseado no que ele chamou de fatos sociais. Segundo o sociólogo francês, existem traços comuns que se repetem em todas as sociedades, os fatos sociais, e o papel do sociólogo seria identificar esses fatos e comparar os dados obtidos das diferentes sociedades.
- Isolamento social e falta de perspectiva de vida social, o que Durkheim classificou como suicídio egoísta, não no sentido de não se pensar nos outros, mas no sentido de projetar o próprio ego e a sua existência para fora da sociedade e não enxergar vínculos entre si mesmo e o mundo.
- Tirar a própria vida por uma causa maior, o que Durkheim chamou de suicídio altruísta, que é enxergar em algo uma maior importância que a própria existência, fazendo com que o sujeito se mate em nome daquilo que está em questão.
- Tirar a própria vida por conta de uma instabilidade caótica no âmbito social ou econômico, o que leva as pessoas a tomarem medidas drásticas. Durkheim chamou essa forma de suicídio anômico.
- A Sociologia surgiu na França;
- Primeiro, ela foi idealizada por Auguste Comte;
- Émile Durkheim criou o primeiro método sociológico e desenvolveu a Sociologia como uma ciência autônoma;
- Vários fatores acumulados desde o Renascentismo, passando pela Revolução burguesa e pela Revolução Industrial contribuíram para o surgimento da Sociologia;
- A Sociologia chegou ao Brasil por pensadores não especialistas a partir do fim do século XIX;
- Em 1933, foi criado o primeiro curso superior de Sociologia no Brasil, o que fez surgir uma nova leva de sociólogos especializados que consolidaram de vez os estudos sociológicos brasileiros.
Escrito por: Francisco Porfírio
Graduado e mestre em Filosofia, atua como professor de Filosofia, Sociologia e História da Arte. É goianiense, apaixonado por literatura, arte e gastronomia e tenta ser corredor de rua nas horas vagas (quando tem horas vagas).
Fonte: Mundo Educação (UOL)











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