Foi um autor extremamente prolífico, tendo publicado mais de cinquenta livros e comentado sobre alguns dos fenômenos culturais e sociológicos mais relevantes da era contemporânea, incluindo o apagamento das distinções de gênero, raça e classe que estruturavam as sociedades modernas, em favor de uma nova sociedade pós-moderna de consumo, mídia e alta tecnologia; os papéis em mutação da arte e da estética; mudanças fundamentais na política, na cultura e nos próprios seres humanos; e o impacto das novas mídias, da informação e das tecnologias cibernéticas na criação de uma ordem social qualitativamente diferente, provocando mutações fundamentais na vida humana e social.
Durante alguns anos, foi uma figura cultuada da teoria pós-moderna, mas Baudrillard superou o discurso pós-moderno desde o início dos anos 1980 até sua morte em 2007, desenvolvendo em seus escritos mais tardios um modo altamente idiossincrático de análise filosófica e cultural. Esta entrada foca no desenvolvimento dos modos únicos de pensamento de Baudrillard e em como ele transitou da teoria social para a teoria pós-moderna até chegar a um tipo provocativo de análise filosófica.
Em retrospecto, Baudrillard pode ser visto como um teórico que traçou, de maneira original, a vida dos signos e o impacto da tecnologia na vida social, além de ter criticado sistematicamente os principais modos de pensamento moderno, ao mesmo tempo em que desenvolvia suas próprias perspectivas filosóficas.
Escritos Iniciais de Baudrillard: De O Sistema dos Objetos a O Espelho da Produção
Jean Baudrillard nasceu na cidade catedral de Reims, na França, em 1929. Ele contou a entrevistadores que seus avós eram camponeses e seus pais se tornaram funcionários públicos (Gane 1993: 19). Baudrillard também afirma ter sido o primeiro membro de sua família a buscar uma educação superior, o que teria causado uma ruptura com seus pais e com seu meio cultural. Em 1956, começou a trabalhar como professor de ensino médio em um liceu francês e, no início da década de 1960, realizou trabalhos editoriais para a editora francesa Seuil. Baudrillard iniciou sua trajetória como germanista, publicando ensaios sobre literatura na revista Les Temps Modernes entre 1962 e 1963, e traduziu para o francês obras de Peter Weiss e Bertolt Brecht, além de um livro sobre movimentos revolucionários messiânicos de Wilhelm Mühlmann. Durante esse período, conheceu e estudou as obras de Henri Lefebvre, cujas críticas à vida cotidiana o impressionaram, e de Roland Barthes, cujas análises semiológicas da sociedade contemporânea tiveram influência duradoura em seu trabalho.
Em 1966, Baudrillard ingressou na Universidade de Paris, em Nanterre, onde se tornou assistente de Lefebvre enquanto estudava línguas, filosofia, sociologia e outras disciplinas. Defendeu sua “Thèse de Troisième Cycle” em sociologia na mesma universidade com uma dissertação sobre O Sistema dos Objetos, e começou a lecionar sociologia em outubro daquele ano. Opondo-se à intervenção da França e dos Estados Unidos nas guerras da Argélia e do Vietnã, Baudrillard se alinhou à esquerda francesa na década de 1960. Nanterre era um centro importante da política radical, e o “Movimento 22 de Março”, associado a Daniel Cohn-Bendit e aos enragés, teve início no departamento de sociologia da universidade. Baudrillard declarou posteriormente que participou dos eventos de maio de 1968, que resultaram em grandes levantes estudantis e uma greve geral que quase derrubou o governo de De Gaulle.
No final dos anos 1960, Baudrillard publicou uma série de livros que viriam a torná-lo mundialmente famoso. Influenciado por Lefebvre, Barthes e outros pensadores franceses cuja influência será discutida adiante, Baudrillard desenvolveu um trabalho sério no campo da teoria social, da semiologia e da psicanálise. Publicou seu primeiro livro, O Sistema dos Objetos, em 1968 (edição inglesa de 1996), seguido por A Sociedade de Consumo em 1970 (edição inglesa de 1998), e Para uma Crítica da Economia Política do Signo em 1972 (edição inglesa de 1981). Essas primeiras publicações são tentativas, dentro da sociologia crítica, de combinar os estudos da vida cotidiana iniciados por Lefebvre (1971 e 1991 [1947]) com uma semiologia social voltada ao estudo da vida dos signos na sociedade. Esse projeto, influenciado por Barthes (1967 [1964], 1972 [1958] e 1983 [1967]), se concentra no sistema de objetos na sociedade de consumo (tema dos dois primeiros livros) e na interface entre economia política e semiótica (foco do terceiro livro).
A obra inicial de Baudrillard foi uma das primeiras a apropriar-se da semiologia para analisar como os objetos são codificados com um sistema de signos e significados que constituem as sociedades contemporâneas da mídia e do consumo. Combinando estudos semiológicos, economia política marxista e sociologia da sociedade de consumo, Baudrillard iniciou sua tarefa de vida: explorar o sistema de objetos e signos que forma o nosso cotidiano.
O primeiro Baudrillard descrevia os significados investidos nos objetos da vida cotidiana (por exemplo, o poder obtido ao se identificar com o próprio automóvel ao dirigir) e o sistema estrutural por meio do qual os objetos eram organizados em uma nova sociedade moderna (por exemplo, o prestígio ou valor de signo de um carro esportivo novo). Em seus três primeiros livros, Baudrillard sustentava que a crítica marxista clássica da economia política precisava ser complementada por teorias semiológicas do signo, as quais articulavam os diversos significados significados pelos significantes em linguagens organizadas em sistemas de sentido. Baudrillard, seguindo Barthes e outros, argumentava que a moda, os esportes, os meios de comunicação e outros modos de significação produziam sistemas de significados articulados por regras, códigos e lógicas específicas — termos que ele usa de forma relativamente intercambiável e que serão explorados com mais profundidade adiante.
Situando sua análise dos signos, da linguagem e da vida cotidiana dentro de um arcabouço histórico, Baudrillard argumentou que a transição do estágio inicial do capitalismo de mercado competitivo para o estágio do capitalismo monopolista exigiu maior atenção à gestão da demanda, com o objetivo de aumentar e direcionar o consumo. Nesse estágio histórico, que vai aproximadamente de 1920 até os anos 1960, a necessidade de intensificar a demanda passou a complementar a preocupação com a redução dos custos de produção e com a expansão da produção. Nessa fase do desenvolvimento capitalista — marcada pela concentração econômica, por novas técnicas de produção e pelo desenvolvimento de novas tecnologias — a capacidade acelerada de produção em massa levou as corporações capitalistas a focarem cada vez mais na gestão do consumo e na criação de necessidades por novos bens prestigiados, instaurando assim o regime do que Baudrillard chamou de valor de signo (sign-value).
Segundo a análise de Baudrillard, a publicidade, a embalagem, a exposição de produtos, a moda, a sexualidade “emancipada”, os meios de comunicação de massa e a cultura, assim como a proliferação de mercadorias, multiplicaram a quantidade de signos e espetáculos e geraram uma proliferação do valor de signo. A partir de então, afirma Baudrillard, as mercadorias não devem mais ser caracterizadas apenas por seu valor de uso e valor de troca, como na teoria marxista da mercadoria, mas também por seu valor de signo — a expressão e marca de estilo, prestígio, luxo, poder etc. —, que se torna uma parte cada vez mais importante da mercadoria e do consumo (cf. Goldman e Papson, 1996).
Sob essa perspectiva, Baudrillard afirma que as mercadorias são compradas e exibidas tanto por seu valor de signo quanto por seu valor de uso, e que o fenômeno do valor de signo tornou-se um elemento essencial da mercadoria e do consumo na sociedade de consumo. Essa posição foi influenciada pela noção de “consumo conspícuo” de Veblen — o consumo ostensivo e a exibição de mercadorias — analisada em sua obra A Teoria da Classe Ociosa, que Baudrillard argumenta ter se estendido a todos na sociedade de consumo. Para ele, toda a sociedade passa a ser organizada em torno do consumo e da exibição de mercadorias, por meio dos quais os indivíduos adquirem prestígio, identidade e posição social. Nesse sistema, quanto mais prestigiadas forem as mercadorias de um indivíduo (casas, carros, roupas etc.), maior será sua posição no reino do valor de signo. Assim como as palavras adquirem significado conforme sua posição em um sistema diferencial de linguagem, os valores de signo adquirem significado conforme sua posição em um sistema diferencial de prestígio e status.
Em A Sociedade de Consumo, Baudrillard conclui exaltando “formas múltiplas de recusa” da convenção social, do consumo ostensivo e do pensamento e comportamento conformistas — todos elementos que podem ser fundidos numa “prática de mudança radical” (1998: 183). Ele alude aqui à expectativa de “erupções violentas e desintegrações súbitas que virão, tão imprevisíveis e certas quanto Maio de 68, destruir essa massa branca [do consumo]” (1998: 196). Por outro lado, Baudrillard também descreve uma situação em que a alienação é tão total que não pode ser superada, pois “é a própria estrutura da sociedade de mercado” (1998: 190). Seu argumento é que, em uma sociedade onde tudo é mercadoria passível de compra e venda, a alienação é total. De fato, o termo “alienação” originalmente significava “vender”, e numa sociedade totalmente mercantilizada, a alienação é ubíqua. Além disso, Baudrillard propõe o “fim da transcendência” (expressão emprestada de Marcuse), em que os indivíduos não conseguem mais perceber suas verdadeiras necessidades ou imaginar outra forma de vida (1998: 190 e seguintes).
Baudrillard e o Neomarxismo: ruptura e continuação
Por volta de 1970, Jean Baudrillard começa a se afastar da teoria marxista clássica da revolução, substituindo-a por uma aposta na possibilidade de revolta contra a sociedade de consumo — uma revolta “imprevisível, mas certa”. Nos anos finais da década de 1960, ele esteve vinculado ao grupo intelectual em torno da revista Utopie, que, inspirado por Guy Debord e a Internacional Situacionista, buscava ultrapassar fronteiras disciplinares e refletir sobre sociedades alternativas, arquitetura e modos de vida cotidianos. Essa experiência reforçou em Baudrillard uma postura marginal e independente, voltada à crítica cultural fora dos moldes teóricos e políticos tradicionais.
Essa trajetória marca uma relação ambígua com o marxismo. De um lado, Baudrillard continua a crítica marxista à produção de mercadorias e à alienação no capitalismo, algo que o aproxima da Escola de Frankfurt — especialmente de Herbert Marcuse, autor de críticas precoces à sociedade de consumo. De outro lado, ele recusa elementos centrais da teoria marxista, como a ideia de uma classe revolucionária (especialmente o proletariado) ou de um sujeito coletivo capaz de transformação histórica. Como estruturalistas e pós-estruturalistas franceses, ele rejeita a noção moderna de sujeito autônomo, argumentando que a subjetividade é produzida por linguagens, instituições e práticas culturais.
Baudrillard tampouco oferece uma teoria da luta de classes ou da organização política. Ainda assim, sua análise da reificação — processo em que os sujeitos são dominados por objetos e se tornam eles próprios “coisas” — o insere na tradição crítica. Para ele, em uma sociedade de consumo e mídia, a cultura também se torna homogênea, impedindo a expressão da individualidade e da autodeterminação. Aqui, Baudrillard radicaliza a crítica da Escola de Frankfurt, ao aplicar a teoria semiótica dos signos: não apenas os objetos, mas os signos (estilos, imagens, tecnologias) dominam a vida, oferecendo mundos ilusórios de prestígio e identidade. O indivíduo se dissolve em meio ao espetáculo e ao consumo — é o “fim da subjetividade” vislumbrado pelos frankfurtianos, agora plenamente consumado.
Em seus primeiros escritos, Baudrillard ainda vê o consumo como uma atividade simbólica, um “trabalho de manipulação de signos”, pelo qual os indivíduos buscam se diferenciar. No entanto, ele não chega a desenvolver uma teoria robusta de agência ou resistência: o sujeito é ativo apenas no interior da lógica do sistema, não contra ela.
Seus três primeiros livros podem ser lidos como uma extensão neomarxista da crítica ao capitalismo, onde ele complementa a análise marxista da produção com uma atenção à cultura e aos signos. Contudo, em O Espelho da Produção (1973), Baudrillard rompe com o marxismo, acusando-o de ser um reflexo da própria sociedade burguesa, ao colocar a produção como centro da vida. Nesse gesto radical, ele denuncia que até mesmo o marxismo estaria preso à lógica do produtivismo capitalista, naturalizando-o.
Embora tenha participado dos eventos de Maio de 1968 e se alinhado à esquerda revolucionária e ao marxismo, Baudrillard rompeu com o marxismo no início dos anos 1970, mantendo-se politicamente radical, porém não alinhado a qualquer corrente. Desiludido com a postura conservadora do Partido Comunista Francês diante dos movimentos de 1968 e crítico do marxismo oficial de autores como Althusser, que considerava dogmático, Baudrillard iniciou uma crítica radical ao marxismo. Em A Troca Simbólica e a Morte (1975), ele argumenta que o marxismo não explica adequadamente as sociedades pré-modernas, centradas na religião e na mitologia, nem oferece uma crítica suficientemente profunda das sociedades capitalistas. Inspirando-se em perspectivas antropológicas, Baudrillard busca alternativas mais emancipadoras. Sua crítica, portanto, parte da esquerda, mas acusa o marxismo de não ser radical o bastante e de compartilhar com o capitalismo uma obsessão pela produção, o que explicaria, segundo ele, o conservadorismo dos comunistas franceses em 1968.
Troca Simbólica e a Ruptura Pós-Moderna
O Espelho da Produção e seu livro seguinte, A Troca Simbólica e a Morte (1976), uma obra central finalmente traduzida em 1993, são tentativas de oferecer perspectivas ultrarradicais que superem as limitações da tradição marxista economicista, que privilegia a esfera econômica. No entanto, essa fase ultraesquerdista do percurso de Baudrillard seria breve, embora em A Troca Simbólica e a Morte, ele formule uma de suas provocações mais importantes e dramáticas. O texto se abre com um prefácio que condensa sua tentativa de oferecer uma abordagem significativamente distinta da sociedade e da cultura. Baseando-se na teoria cultural francesa de Georges Bataille, Marcel Mauss e Alfred Jarry, ele defende a “troca simbólica”, que resiste aos valores capitalistas de utilidade e lucro monetário em nome de valores culturais.
Baudrillard argumenta que, na afirmação de Bataille de que o gasto e o excesso estão ligados à soberania; nas descrições de Mauss sobre o prestígio social da dádiva nas sociedades pré-modernas; no teatro de Jarry que ridiculariza a cultura francesa; e nos anagramas de Saussure, há uma ruptura com os valores da troca e produção capitalistas, bem como com a produção de sentido na troca linguística. Essas formas de “troca simbólica”, segundo Baudrillard, rompem com os valores da produção e descrevem trocas poéticas e atividades culturais criativas que oferecem alternativas aos valores capitalistas de produção e troca.
O termo “troca simbólica” deriva da noção de “economia geral” de Georges Bataille, segundo a qual o gasto, o desperdício, o sacrifício e a destruição são mais fundamentais à vida humana do que as economias de produção e utilidade (1988 [1967]). O modelo de Bataille era o sol, que gasta sua energia livremente sem exigir nada em troca. Ele argumentava que, se os indivíduos quisessem ser verdadeiramente soberanos (isto é, livres das imposições do capitalismo), deveriam adotar uma “economia geral” de gasto, doação, sacrifício e destruição, para escapar das determinações impostas pela utilidade.
Para Bataille, os seres humanos são seres de excesso, com energia exorbitante, fantasias, impulsos, necessidades e desejos heterogêneos. Nesse ponto, Baudrillard parte do pressuposto de que a antropologia e a economia geral de Bataille são verdadeiras. Em uma resenha de 1976 sobre um volume das Obras Completas de Bataille, Baudrillard escreve: “A ideia central é que a economia que governa nossas sociedades resulta de uma apropriação indevida do princípio humano fundamental, que é um princípio solar de gasto” (1987: 57). No início dos anos 1970, Baudrillard adota a posição antropológica de Bataille e o que chama de “crítica aristocrática” do capitalismo, que ele agora afirma estar fundamentado em noções grosseiras de utilidade e poupança, em oposição à noção mais sublime e “aristocrática” de excesso e gasto. Bataille e Baudrillard pressupõem aqui uma contradição entre a natureza humana e o capitalismo. Eles sustentam que os humanos “por natureza” obtêm prazer com coisas como o gasto, o desperdício, as festividades, os sacrifícios, etc., momentos nos quais são soberanos e livres para extravasar os excessos de sua energia (e assim seguir sua “verdadeira natureza”). As imposições capitalistas do trabalho, da utilidade e da poupança, por implicação, são “antinaturais” e vão contra a natureza humana.
Baudrillard argumenta que a crítica marxista ao capitalismo, por outro lado, apenas ataca o valor de troca enquanto exalta o valor de uso e, portanto, a utilidade e a racionalidade instrumental, buscando assim um “bom uso da economia”. Para Baudrillard:
"O marxismo é, portanto, apenas uma crítica pequeno-burguesa limitada, mais um passo na banalização da vida rumo ao ‘bom uso’ do social! Bataille, ao contrário, varre toda essa dialética do escravo a partir de um ponto de vista aristocrático, o do senhor em luta com sua morte. Pode-se acusar essa perspectiva de ser pré ou pós-marxista. De todo modo, o marxismo é apenas o horizonte desencantado do capital — tudo que o precede ou sucede é mais radical que ele (1987: 60)".
Essa passagem é altamente reveladora e marca a transição de Baudrillard para uma “crítica aristocrática” da economia política, profundamente influenciada por Bataille e Nietzsche. Pois Bataille e Baudrillard estão apresentando uma versão da “moralidade senhorial” aristocrática de Nietzsche, na qual indivíduos “superiores” criam seus próprios valores e suas vidas expressam excesso, transbordamento e intensificação de energias criativas e eróticas. Nietzsche foi uma influência importante ao longo da vida de Baudrillard e, especialmente nas últimas décadas de sua obra, os motivos, modos de pensamento e práticas de escrita nietzschianas passaram a informar cada vez mais seu trabalho. Baudrillard tornou-se cada vez mais radical e “incontemporâneo”, posicionando-se contra as tendências e modas atuais, num modo de pensamento ferozmente individualista. Categorias nietzschianas como destino, reversão, incerteza e um assalto aristocrático ao saber convencional passaram a moldar seus escritos, que muitas vezes, à maneira de Nietzsche, assumem a forma de aforismos ou ensaios curtos.
Por algum tempo, Baudrillard continuaria a atacar a burguesia, o capital e a economia política, mas a partir de uma perspectiva que valoriza o gasto “aristocrático” e valores sumptuários, estéticos e simbólicos. O lado obscuro dessa mudança de lealdades teóricas e políticas é uma valorização do sacrifício e da morte que permeia A Troca Simbólica e a Morte (no qual o sacrifício proporciona uma dádiva que subverte os valores burgueses de utilidade e autopreservação — uma ideia com implicações sinistras em uma era de atentados suicidas e terrorismo).
De modo geral, em sua obra da metade dos anos 1970, Baudrillard estava se desvencilhando do universo marxista familiar da produção e da luta de classes, em direção a uma visão de mundo neoristocrática e metafísica bastante distinta. Baudrillard parece pressupor nesse ponto que as sociedades pré-capitalistas eram governadas por formas de troca simbólica semelhantes à noção de economia geral de Bataille. Influenciado pela teoria da dádiva e da contrapartida de Mauss, Baudrillard afirmou que as sociedades pré-capitalistas eram regidas por leis de troca simbólica em vez de produção e utilidade. Desenvolvendo essas ideias, Baudrillard traçou uma linha divisória fundamental na história entre sociedades simbólicas — isto é, sociedades organizadas fundamentalmente em torno da troca pré-moderna — e sociedades produtivistas (isto é, sociedades organizadas em torno da produção e da troca de mercadorias). Ele rejeita, assim, a filosofia marxista da história, que postula a primazia da produção em todas as sociedades, e rejeita o conceito marxista de socialismo, argumentando que este não rompe radicalmente com o produtivismo capitalista, oferecendo-se apenas como uma organização mais eficiente e equitativa da produção, em vez de uma sociedade completamente diferente, com outros valores e formas de cultura e vida.
Doravante, Baudrillard contrastaria — de uma forma ou de outra — seu ideal de troca simbólica com os valores de produção, utilidade e racionalidade instrumental que governam as sociedades capitalistas (e socialistas). A “troca simbólica” emerge assim como a alternativa “revolucionária” de Baudrillard aos valores e práticas da sociedade capitalista, representando uma variedade de atividades heterogêneas em seus escritos da década de 1970. Por exemplo, ele escreve na Crítica: “A troca de olhares, o presente que vai e vem, são como o ar que as pessoas respiram para dentro e para fora. Este é o metabolismo da troca, prodigalidade, festividade — e também da destruição (que devolve ao não-valor aquilo que a produção ergueu e valorizou). Neste domínio, o valor nem sequer é reconhecido” (1981: 207). Ele também descreve sua concepção de troca simbólica em O Espelho da Produção, onde escreve: “A relação social simbólica é o ciclo ininterrupto de dar e receber, que, na troca primitiva, inclui o consumo do ‘excedente’ e a antiprodução deliberada” (1975: 143). O termo refere-se, portanto, a atividades simbólicas ou culturais que não contribuem para a produção e acumulação capitalistas e que potencialmente constituem uma “negação radical” da sociedade produtivista.
Nesse estágio de seu pensamento, Baudrillard situava-se em uma tradição francesa que exaltava a cultura “primitiva” ou pré-moderna sobre o racionalismo abstrato e o utilitarismo da sociedade moderna. Sua defesa da troca simbólica sobre a produção e a racionalidade instrumental insere-se, assim, na tradição da defesa de Rousseau do “bom selvagem” em detrimento do homem moderno, na oposição de Durkheim entre as solidariedades mecânicas das sociedades pré-modernas e o individualismo abstrato e a anomia das modernas, na valorização de Bataille do gasto nas sociedades pré-modernas, ou no fascínio de Mauss e Lévi-Strauss pela riqueza das “sociedades primitivas” ou do “pensamento selvagem”. Depois de desconstruir os mestres modernos do pensamento e seus próprios pais teóricos (Marx, Freud, Saussure e seus contemporâneos franceses) por ignorarem a riqueza da troca simbólica, Baudrillard continua a defender formas simbólicas e radicais de pensamento e escrita em uma busca que o leva a discursos cada vez mais esotéricos e exóticos.
Assim, contra as formas organizadoras do pensamento e da sociedade moderna, Baudrillard defende a troca simbólica como alternativa. Contra as exigências modernas de produzir valor e significado, ele clama por sua extinção e aniquilação, oferecendo como exemplos a troca de presentes de Mauss, os anagramas de Saussure e o conceito freudiano da pulsão de morte. Em todos esses casos, há uma ruptura com as formas de troca (de bens, significados e energias libidinais) e, portanto, uma fuga das formas de produção, capitalismo, racionalidade e sentido. O conceito paradoxal de troca simbólica de Baudrillard pode ser explicado como expressão de um desejo de se libertar das posições modernas e buscar uma posição revolucionária fora da sociedade moderna. Contra os valores modernos, ele defende sua aniquilação e extinção.
Nos anos 1970, como Baudrillard postula outra divisão na história tão radical quanto a ruptura entre sociedades simbólicas pré-modernas e sociedades modernas. No modo da teoria social clássica, ele desenvolve sistematicamente distinções entre sociedades pré-modernas organizadas em torno da troca simbólica, sociedades modernas organizadas em torno da produção e sociedades pós-modernas organizadas em torno da “simulação”, por meio da qual ele entende os modos culturais de representação que “simulam” a realidade, como na televisão, no ciberespaço computacional e na realidade virtual. A distinção de Baudrillard entre o modo de produção e utilidade que organizava as sociedades modernas e o modo de simulação que ele acredita ser a forma organizadora das sociedades pós-modernas postula uma ruptura entre sociedades modernas e pós-modernas tão grande quanto a divisão entre sociedades modernas e pré-modernas. Ao teorizar a ruptura pós-moderna com a modernidade, ele declara o “fim da economia política” e de uma era na qual a produção era a forma organizadora da sociedade. Seguindo Marx, ele argumenta que essa época moderna foi a era do capitalismo e da burguesia, na qual os trabalhadores eram explorados pelo capital e forneciam uma força revolucionária de subversão. Baudrillard, no entanto, declarou o fim da economia política e, assim, o fim da problemática marxista e da própria modernidade:
"O fim do trabalho. O fim da produção. O fim da economia política. O fim da dialética significante/significado que facilita a acumulação de conhecimento e de sentido, o sintagma linear do discurso cumulativo. E, ao mesmo tempo, o fim simultâneo da dialética valor de troca/valor de uso que é a única coisa que torna possível a acumulação e a produção social. O fim da dimensão linear do discurso. O fim da dimensão linear da mercadoria. O fim da era clássica do signo. O fim da era da produção (Baudrillard 1993a: 8)".
Obras
Abaixo está uma lista das principais obras de Jean Baudrillard, organizadas por ordem cronológica, com seus títulos originais em francês e, quando disponíveis, os títulos em português (ou inglês, caso não haja tradução consagrada):
Principais Obras de Jean Baudrillard
Década de 1960
- 1968 – Le Système des objets (O Sistema dos Objetos)
- 1970 – La Société de consommation (A Sociedade de Consumo)
- 1972 – Pour une critique de l’économie politique du signe (Para uma Crítica da Economia Política do Signo)
- 1973 – Le Miroir de la production (O Espelho da Produção)
- 1976 – L’Échange symbolique et la mort (A Troca Simbólica e a Morte)
- 1977 – Oublier Foucault (Esquecer Foucault)
- 1978 – À l’ombre des majorités silencieuses (À Sombra das Maiorias Silenciosas)
- 1981 – Simulacres et simulation (Simulacros e Simulação)
- 1983 – Les stratégies fatales (As Estratégias Fatais)
- 1985 – La Fatalité de la culture (A Fatalidade da Cultura)
- 1986 – Amérique (América)
- 1987 – Cool Memories (Memórias Frias, Vol. 1)
- 1990 – La Transparence du mal (A Transparência do Mal)
- 1991 – La Guerre du Golfe n’a pas eu lieu (A Guerra do Golfo Não Aconteceu)
- 1993 – L’illusion de la fin (A Ilusão do Fim)
- 1994 – Le crime parfait (O Crime Perfeito)
- 1995 – Le complot de l’art (O Complô da Arte)
- 1997 – De l’exorcisme en politique (Do Exorcismo na Política)
- 1999 – Paroxysm: Interviews with Philippe Petit (Paroxismo)
- 2000 – Le pacte de lucidité ou l’intelligence du Mal (O Pacto de Lúcidez ou A Inteligência do Mal)
- 2002 – Power Inferno
- 2004 – Fragments : Cool Memories V
- 2005 – Le Pari symbolique (A Aposta Simbólica)









Nenhum comentário:
Postar um comentário